O passo inicial foi ser a primeira a comparecer às aulas e sentar, com
uma cara de atenção e admiração que qualquer um jurava que eu tinha freqüentado
o Actors Studio, colega de turma de Marlon Brando. Só quem ia às aulas dele
eram os cê-dê-efes e os que estavam pendurados por faltas, mas eu não, eu já
estava no corredor na hora em que ele vinha e, quando ele vinha, eu ruborizava
-- sempre soube ruborizar à vontade --, virava as costas e, sabendo
perfeitamente que ele estava vendo, retocava o batom e o ruge, alisava a saia,
ajeitava o cabelo e ia sentar na primeira fila. Quantas vezes eu sentei ali,
toda pudica, antes de qualquer outro aluno chegar! Ele ficava sem-gracíssima,
um tesão, e eu não dava bandeira nenhuma, só perguntava como ele ia e dizia que
estava esperando aquela aula, eu adorava Penal, e as aulas dele me abriam
mundos. Minha postura era também muito recatada, se bem que com umas certas
exceções repentinas e fugazes, só para deixá-lo de orelha em pé e sem saber o
que pensar direito. E naquele tempo se andava de anágua e sutiã e minissaia era
dos anos 20, do tempo das flappers, que a gente via no cinema. E, mesmo que
houvesse minissaia, eu não usaria, já estava ligada na prática do
primeiro-foi-você, nunca perdi tempo em querer dar murro em ponta de faca.
Foram meses, alguém
acredita? Foram meses para ele compreender que eu estava querendo dar para ele
e mais meses para ele aceitar me desvirginar. Foram meses renascentistas,
florentinos, mas eu não me importei, até gostei. Continuei levando a minha vida
como sempre, com noivo e tudo. Me sentia mais ou menos como Selma, a jibóia de
Norma Lúcia, e ele era o ratinho em que eu ia me enroscar e engolir. E eu não
me limitava à manobra de sentar na primeira fila. A cada dia eu fechava o cerco
mais um bocadinho, um aperto sutil, um avanço quase imperceptível, mas sempre
um tijolo na minha construção. Dei para ficar na sala depois da aula, sempre
tinha uma pergunta, várias perguntas, olhando direto nos olhos dele, que
desviava a vista, mas eu firme. Pedia bibliografia, fazia que não entendia
certas coisas, citava trechos de livros, virei uma verdadeira Beccaria, só se
vendo. Depois pegamos mais proximidade e eu mostrei cadernos, anotações e
escritos meus, uns poemas. Uma vez -- ninguém neste mundo presta, muito menos
eu -- ele estava lendo uns poemas e eu, fingindo alto nervosismo, tomei o
caderno dele na hora em que ele estava começando um poema e disse que aquele
não, aquele ele não podia ler. E -- fiz, fiz, fiz, não posso negar, fiz um
negócio que sempre considerei vulgar, mas fiz -- apliquei aquele golpe do veja
como eu estou nervosa, puxando a mão do freguês para o meu regaço. E, no setor
visual, a esta altura eu já tinha chegado ao saião com botões na frente. Anágua
fina por baixo, mas saião com botões. Não aparecia nada, só muito de relance e
uma vez na vida e outra na morte, mas ele ficava perturbado, já andava
visivelmente perturbado comigo, às vezes, coitado, dava uns olhares caídos e
compridos, como se quisesse pedir misericórdia. E eu firme. Minhas ficadas
depois da aula viraram costume, comigo conversando e usando todos os truques
que já nasci sabendo, pegando no braço dele e tirando a mão depressa e
maliciosamente, elogiando ele, chegando perto para olhar livros sobre o ombro
dele, olhos nos olhos sempre que podia, uma campanha napoleônica, Norma Lúcia
disse que eu era letal.
Finalmente, chegou o grande
dia. Era uma quarta-feira e chovia -- não é assim que se começam esses relatos?
Não sei se era quarta-feira, mas chovia, sim, no grande dia, é um pormenor
importante. E foi inesperado, porque ele não dava aula nesse dia, mas
Mascarenhas, o catedrático, tinha medo obsessivo de ficar tuberculoso outra vez
e amaldiçoava até ventiladores e mandou que ele aplicasse a prova. Quase todo
mundo acabou mais ou menos cedo, mas eu, que tinha estudado como uma alucinada,
escrevi resmas de papel e demorei ate quase o fim do horário. Quando chegou a
hora, só restavam na sala ele e Jorginho, que era maluco e tinha dificuldade em
escrever, mas já estava terminando. Eu esperei um bocadinho, vi que Jorginho
ainda ia demorar mais um tempinho e tomei uma decisão que já estava disposta a
tomar fazia muito. Fingi que o vade-mécum e os cadernos-estavam atrapalhando,
botei a caneta na boca e fui até ele. Ele estava curvado, com as mãos apoiadas
na mesa, e então, aparentando estar toda sem jeito, deixei uns cadernos cair na
mesa, peguei a papelada da prova para entregar e, bem nessa hora, como quem
está distraída mas deixando transparecer uma determinação inegável embora
intangível, encostei na mão dele, que se fechava sobre a borda da mesa. Ele
levou um susto e tirou a mão, mas eu fiz pressão e minha saia chegou a subir um
pouco, arrepanhada em frente a meu púbis pelo movimento dele. Mas eu não
aliviei a pressão, só olhei nos olhos dele outra vez, depois baixei a vista,
depois fiquei vermelha, fiz menção de sair atabalhoadamente, voltei para pegar
um caderno que tinha esquecido de propósito e aí perguntei a ele se eu, agora
que a prova estava entregue, podia permanecer ali um bocadinho e tirar umas
dúvidas com ele? Sabe, eu tinha tido uns dois professores que marcaram minha
vida, dois ou três, no máximo. E ele era um deles, sabia? Ele tinha despertado
algo que dormia em mim, algo de cuja existência eu jamais suspeitara e agora,
pelas mãos dele, descobrira arrebatada, quase sem fôlego.
Uma paixão, disse eu. E
falei "paixão" de forma tão ambígua que eu mesma senti o ambiente
esquentar e ficar como se um vapor escarlate tivesse repentinamente se evolado
do chão. E senti pena dele, coitado! Sim, senti pena dele, eu era a cobra
Selma, ele era o ratinho.
(A Casa dos Budas Ditosos - João Ubaldo Ribeiro)
Para saber o desfecho, leiam o livro. Não irei postar isso aqui.
Ha-há!