13.9.13

Aforismos de Baltasar Gracián.



CRIAR EXPECTATIVAS:

O sucesso inesperado provoca admiração. Jogar abertamente não agrada nem é útil. Não se mostrar imediatamente gera curiosidade, sobretudo em relação aos assuntos importantes, que criam expectativa geral. O mistério, por seu próprio segredo, provoca veneração. Mesmo ao se revelar, deve-se fugir da franqueza total. Não exponha seus pensamentos íntimos a todos. É no silêncio recatado que a sensatez se refugia. Quando uma decisão se torna pública, nunca é devidamente estimada. Se for objeto de crítica, a má sorte virá em dobro. É melhor imitar o procedimento divino para manter os homens atentos e vigilantes.


TORNAR-SE INDISPENSÁVEL:


A pessoa perspicaz prefere os que precisam dela, não os que lhe agradecem. A esperança tem boa memória, mas o agradecimento vulgar é logo esquecido. É um erro confiar nele. Tira-se mais proveito da dependência do que da cortesia. Quem já matou a sede dá as costas imediatamente à fonte: acabada a dependência, acaba a correspondência – e com ela, a estima. A primeira lição da experiência deve ser entreter, mas não satisfazer. Assim se conserva sempre a dependência dos demais. No entanto, não se deve chegar ao cumulo de calar para que os outros errem nem de tornar o ferimento alheio incurável em proveito próprio.

O ESFORÇO E A CAPACIDADE:

Não há excelência sem ambos, e se estão juntos o resultado é ainda melhor. A mediocridade com esforço consegue mais que a superioridade sem ele. A reputação se compra com trabalho: pouco vale o que pouco custa. O esforço quase sempre depende do temperamento. Pode-se entender alguém que prefira ser medíocre numa função mais alta a se destacar em ocupação mais humilde. Mas não há desculpa para quem se contenta em ser mediano num cargo inferior, podendo ser excelente no mais alto. Necessita-se portanto, de natureza e arte, junto com aplicação.

NÃO COMEÇAR COM MUITA EXPECTATIVA:

É comum ver que tudo aquilo que recebe muitos elogios antes de acontecer não alcançará depois o sucesso esperado. O real nunca pode alcançar o imaginado, porque imaginar a perfeição é fácil, mas atingi-la é muito difícil. O casamento da imaginação com o desejo sempre concebe as coisas muito melhores do que elas são. A excelência – por maior que seja – não é suficiente para satisfazer a ideia inicial. Por isso, ao criar uma expectativa exorbitante, causa-se mais decepção que admiração. A esperança é uma grande falsificadora da verdade. A sensatez deve refreá-la, procurando que o gozo real supere o desejo imaginário. Os inícios honrados servem para despertar a curiosidade e não para comprometer a tentativa final. O resultado é melhor quando a realidade supera o que se pensou. Esta regra não vale para coisas ruins. Quando se exagera um mal e a realidade desmente a imaginação, o que a princípio parecia muito ruim chega a ser tolerável.

PERMITIR-SE PEQUENOS DESLIZES:

Um deslize, às vezes, pode ser a melhor recomendação para suas qualidades. A inveja condena tudo o que é bom demais, por isso acusa o perfeito de pecar exatamente porque ele não peca. Procura defeitos no que é muito bom, ainda que só para se consolar. A censura é como raio, que sempre cai sobre as montanhas mais altas. É bom, portanto, que Homero cochile de vez em quando e finja algum descuido da coragem ou da inteligência – mas nunca da prudência – para aplacar a malevolência, evitando que solte seu veneno. Será como estender a capa diante do touro da inveja para salvar a imortalidade.

CAPACIDADE INESCRUTÁVEL:

Se quer ser respeitado por todos, o homem prudente deve evitar que avaliem a profundidade de sua sabedoria e de seus méritos. Ele pode ser conhecido, mas não compreendido. Para não correr o risco de decepcionar os outros, não deve permitir que ninguém averigue os limites de sua capacidade. Nem dar abertura para que lhe vejam por inteiro. A dúvida sobre até onde vai a capacidade causa maior admiração do que a certeza, por maior que seja o talento.

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