O sucesso inesperado provoca admiração. Jogar abertamente não agrada
nem é útil. Não se mostrar imediatamente gera curiosidade, sobretudo em relação
aos assuntos importantes, que criam expectativa geral. O mistério, por seu
próprio segredo, provoca veneração. Mesmo ao se revelar, deve-se fugir da
franqueza total. Não exponha seus pensamentos íntimos a todos. É no silêncio
recatado que a sensatez se refugia. Quando uma decisão se torna pública, nunca
é devidamente estimada. Se for objeto de crítica, a má sorte virá em dobro. É
melhor imitar o procedimento divino para manter os homens atentos e vigilantes.
TORNAR-SE
INDISPENSÁVEL:
A pessoa perspicaz prefere os que precisam
dela, não os que lhe agradecem. A esperança tem boa memória, mas o
agradecimento vulgar é logo esquecido. É um erro confiar nele. Tira-se mais
proveito da dependência do que da cortesia. Quem já matou a sede dá as costas
imediatamente à fonte: acabada a dependência, acaba a correspondência – e com
ela, a estima. A primeira lição da experiência deve ser entreter, mas não
satisfazer. Assim se conserva sempre a dependência dos demais. No entanto, não
se deve chegar ao cumulo de calar para que os outros errem nem de tornar o
ferimento alheio incurável em proveito próprio.
O
ESFORÇO E A CAPACIDADE:
Não há excelência sem ambos, e se estão juntos
o resultado é ainda melhor. A mediocridade com esforço consegue mais que a superioridade
sem ele. A reputação se compra com trabalho: pouco vale o que pouco custa. O
esforço quase sempre depende do temperamento. Pode-se entender alguém que
prefira ser medíocre numa função mais alta a se destacar em ocupação mais
humilde. Mas não há desculpa para quem se contenta em ser mediano num cargo
inferior, podendo ser excelente no mais alto. Necessita-se portanto, de
natureza e arte, junto com aplicação.
NÃO
COMEÇAR COM MUITA EXPECTATIVA:
É comum ver que tudo aquilo que recebe muitos elogios
antes de acontecer não alcançará depois o sucesso esperado. O real nunca pode
alcançar o imaginado, porque imaginar a perfeição é fácil, mas atingi-la é
muito difícil. O casamento da imaginação com o desejo sempre concebe as coisas
muito melhores do que elas são. A excelência – por maior que seja – não é
suficiente para satisfazer a ideia inicial. Por isso, ao criar uma expectativa
exorbitante, causa-se mais decepção que admiração. A esperança é uma grande
falsificadora da verdade. A sensatez deve refreá-la, procurando que o gozo real
supere o desejo imaginário. Os inícios honrados servem para despertar a
curiosidade e não para comprometer a tentativa final. O resultado é melhor
quando a realidade supera o que se pensou. Esta regra não vale para coisas
ruins. Quando se exagera um mal e a realidade desmente a imaginação, o que a
princípio parecia muito ruim chega a ser tolerável.
PERMITIR-SE
PEQUENOS DESLIZES:
Um deslize, às vezes, pode ser a melhor
recomendação para suas qualidades. A inveja condena tudo o que é bom demais,
por isso acusa o perfeito de pecar exatamente porque ele não peca. Procura defeitos
no que é muito bom, ainda que só para se consolar. A censura é como raio, que
sempre cai sobre as montanhas mais altas. É bom, portanto, que Homero cochile
de vez em quando e finja algum descuido da coragem ou da inteligência – mas
nunca da prudência – para aplacar a malevolência, evitando que solte seu
veneno. Será como estender a capa diante do touro da inveja para salvar a
imortalidade.
CAPACIDADE
INESCRUTÁVEL:
Se quer ser respeitado por todos, o homem
prudente deve evitar que avaliem a profundidade de sua sabedoria e de seus
méritos. Ele pode ser conhecido, mas não compreendido. Para não correr o risco
de decepcionar os outros, não deve permitir que ninguém averigue os limites de
sua capacidade. Nem dar abertura para que lhe vejam por inteiro. A dúvida sobre
até onde vai a capacidade causa maior admiração do que a certeza, por maior que
seja o talento.

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